quinta-feira, 25 de junho de 2009

Início


Bauru, Recanto do Pica-pau. Maio, dia 17 de 1990.
Cedo, bem cedo.
Não havia notado ainda tais fios longos e escuros. Não dessa maneira.
Ainda úmidos, recém lavados naquela manhã de sol. Um cheiro relaxante tomou conta dos sentidos com degustável maciez. Um por um foi se entregando ao momento.
Olfato. Assemelhava-se a um brinquedo há pouco tirado da caixa, roupa nova, carro zero.
Visão. Sentia a textura dos cabelos molhados e cuidados, frios, belos e delicados.
Paladar. Era tomado pelo sabor nostálgico-retrospectivo daquilo que ansiava provar mas ainda desconhecida a intensidade.
Audição. Silêncio, tudo foi subtraído para aguçar os demais sentidos, um escuro sonoro quase tátil.
Tato. Tudo sai de sintonia, destoa, assusta e surpreende. Sinto seu toque em meu braço: “Oi Dolpho, tudo bom?”
Não sei ao certo se demorei a responder ou me mantive calado a observá-la. Precisamos contar com a sorte em momentos como este, desta vez funcionou: “Bom dia, classe”, emitiu a professora ao entrar na sala.
Cabelos pretos, compridos e perfumados era o que domava meus sentidos. Olhos verdes e fortemente delineados ditavam meus olhares. Sobrancelhas de expressivos traços, pele morena e delicada, bochechas que conferiam parecer de boneca ao rosto. Inteligente. Extremamente inteligente e desafiadora. De gênio forte e incisivo, esta era Maíra.
Com apenas 6 anos era assim que minha história de amor por mulheres teve seu início. Sem conhecimento de sua abrangência, me rendia aos poderes desses seres tão fascinantes, dominantes, dóceis e maravilhosamente amáveis.

Nenhum comentário:

Postar um comentário